Espresso.

William Burroughs and Tom Waits at The Black Rider rehearsals




Nos encontramos uma única vez, em uma lanchonete no meio da estrada, no meio do caminho entre São Paulo e o Rio de Janeiro, era comum dizer naquela época “Tudo acontecia no Rio.”

Embora exista uma qualidade atemporal nos fatos que rodeiam esse episódio, lembro que era começo de janeiro, e somente guardo isso porque era um dia terrivelmente quente. O ano de 2001 foi só o primeiro de vários outros deserticamente quentes, eu não deveria reclamar do tempo, afinal, ao menos naquela época ainda existiam estações e já era bom o bastante o mundo não ter acabado como todos previam.

Não sei o nome dele, sou realmente incapaz de dizer sequer se existia um, pessoas como ele não parecem possíveis de ser contidas ou catalogadas, não podem ser nomeadas, com sorte ele seria definido como algum arquétipo ou avatar de determinada ideia.

Na literatura bons personagens são concentrados puros de determinadas características, como rancor, ciúme ou dúvida. Ele era isso.

Lembro de vê-lo sentado junto ao balcão, havia uma xícara de café a sua frente e um jornal. Tinha uma figura magra, lembrou-me imediatamente William Burroughs.
Cerca de uns cinquenta anos, a idade não era tão evidente por conta de rugas ou marcas de expressão, nem por causa dos cabelos acinzentados, na verdade, eram as roupas dele que denunciavam seu tempo de vida. Um terno escuro e sóbrio de tom cinza chumbo como asfalto, uma cor firme e confiável. A camisa branca, bem passada e um colete preto. Os sapatos eram bons, mas não engraxados ou polidos demais, apenas bons, exatamente para passarem despercebidos e não serem vistos como um sinal de ostentação.

Óculos de armação preta e grossa e um chapéu cinza, que descansava perto de seu braço apoiado no balcão. O fato que mais chamou minha atenção é que ele parecia simplesmente não sentir calor, não havia um sinal sequer de incômodo no rosto mesmo vestido daquele modo.
As mesas estavam cheias então me sentei próximo a ele, mantendo um banco de distância. Não pretendia conversar, só queria beber algo gelado. Estava com o cardápio na frente do meu rosto quando escutei a voz dele dizer.

“Aceite um conselho amigo... Não peça café. Eu achei esse daqui bem fraco.”

“Hum.. Obrigado. Eu estava pensando em tomar algo gelado na verdade por causa do calor.”

“Você deveria pedir uma bebida quente. Quando você bebe algo quente seu corpo reage tentando se esfriar, quando você bebe algo frio ele tenta esquentar você por dentro. Eu recomendaria um café se ele não fosse tão ruim.”

“Médico...?”

“Eu? Não. Eu sou vendedor.”

“Parece bom e o que você vende?”

“Não tanto o que... No meu ramo conta mais o “pra quem”. Eu vendo coisas para zumbis.”

“Não parece o tipo de clientela muito comum ou exigente.”

“Não são. Na verdade eu fico surpreso em como eles nunca estão satisfeitos, desculpe o termo, quando digo zumbi me refiro a todas as pessoas.”

“Forma meio cruel de definir seus compradores não acha?”

“Bem... eu achava, ao menos no começo, agora não. Na verdade acredito até que sou gentil.”

“E porque trata eles assim?”

“Por eles você quer dizer a gente? Eu não incluo muitas pessoas fora desse conceito, sem querer ofender, nem mesmo me incluo como exceção. É isso que somos. Possivelmente seja nosso estado natural, é verdade que também fomos ensinados e incentivados ao longo do tempo a nos comportarmos como um bando de idiotas sem cérebros e famintos. Nossa sociedade era originalmente formada por coletores não é? Extrativistas. Sugando os recursos naturais de uma região e então vagando para outra. O problema é que agora fazemos isso em escala global e não teremos a opção de ir para outro lugar quando esse secar. Não colhemos mais, contudo, embalamos e compramos tudo.”

Viro-me para o rapaz dentro do balcão e peço uma torta. Antes de provar o gosto já sei que ela estará um pouco mais amarga do que o normal.

“O que digo e não é exatamente uma descoberta é que as pessoas foram educadas para comprar não para pensar. Um mundo assim é o inferno para um filósofo e meu paraíso particular como vendedor. Eles compram vidas novas, corpos novos, novas soluções, ideologias, perdão, amor, sexo. É a natureza delas, em certo momento sei que vou acabar tendo que vender cérebros e quando essa hora chegar espero já ter me aposentado.”
Ele está sorrindo quando termina de falar e eu também.

“E você? O que faz da vida?”

“Eu sou escritor.”

“Parece bom... De certo modo estamos em ramos parecidos. Vai escrever sobre mim?”

“Acho que sim para ser honesto.”

“Hum... Que bom então que eu não disse meu nome. Isso acabaria com a minha clientela.”

“É eu sei.”

“Preciso ir, tenho que chegar ao Rio antes da noite. Sabe como dizem... “Tudo acontece no Rio.” Obrigado pela companhia.”

“Por nada, boa viagem.”

Ele dobrou o jornal, colocando-o embaixo do braço. Deixou duas notas no balcão para pagar seu pedido e saiu, tomando o cuidado de colocar seu chapéu apenas depois de passar pela porta.

Virei-me para o rapaz do balcão e pedi um espresso. Trinta segundos depois a xícara estava na minha frente, a despeito da recomendação precisava saber se a bebida era mesmo ruim.

Ela era.



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