Caravelas


art by *ken-wong



Aula básica de história... Você deve ter visto isso na escola.
Em 1492, os primeiros colonizadores que chegaram a América e logo trataram de se apossar das terras e dos recursos naturais que encontram, para eles foi um ato natural e lógico.

Eles caçaram, compreendeu bem? Caçaram, e esse é o termo, os habitantes locais. Expulsaram ou confinaram, em pequenas reservas, populações nativas inteiras e isso com o consentimento da igreja e do governo.
Não houve culpa...

Algumas vezes penso nisso durante a noite. Imagino se alguém questionava os desbravadores.
Uma pessoa, uma ao menos, deve ter perguntado se era mesmo correto agir assim e, diante dessa dúvida, creio que os defensores da colonização provavelmente argumentaram que aquela terra nunca pertenceu aos nativos.

Tratava-se apenas de um bando de tribos desorganizadas, selvagens, espalhadas por locais diferentes e que viviam lutando entre si como animais.

Se conhecessem o conceito citariam a sobrevivência do mais apto, a evolução, como justificativa para dizimar etnias inteiras.

Sabe o que eu mais gosto sobre a história? É que ela sempre se repete, sempre volta como um fantasma.
Em abril de 2016, bem durante o meio da tarde, uma espaçonave em formato de V e com sete quilômetros de envergadura surgiu pairando sobre a capital dos Estados Unidos. Esse não é o tipo de coisa que acontece todo dia, não é?

Os canais de notícia transmitiram por horas, ao menos, até que outras naves semelhantes surgissem em pontos diferentes do planeta. Quando isso aconteceu cada rádio e emissora de televisão teve a oportunidade de registrar sua própria jornada épica. Alemanha, China, Brasil, Rússia, Reino Unido, África do Sul, Arábia Saudita, Irã, Venezuela, França, Japão, Austrália... Eu não lembro quantos países foram no total, acho que ninguém sabe exatamente isso.

Os jornais chamaram aquelas naves de Leviathans, tinha sido um jornalista da CNN o primeiro a usar o termo. Eu estava em casa vendo os noticiários, e confesso, senti um desconforto quando os primeiros grupos de pessoas começaram a se aglomerar, sob as naves, com cartazes e mensagens, como se os deuses ou seus mensageiros divinos tivessem retornado.

Era uma sensação de déjà vu e eu me perguntava de onde ela vinha...

Até lembrar da imagem de índios, em praias quentes da América, extasiados com a visão das primeiras caravelas. Foi essa cena que me fez levantar do sofá, pegar a maior mochila que encontrei e enchê-la com mantimentos e qualquer coisa pudesse ser usada como arma.

Uma parte minha lamentou ir embora e perder as empolgantes reportagens e discussões nos programas de televisão. As enquetes, votações online e os comentários na internet... Imagino que tudo isso foi muito interessante. Os céticos dizendo que aquilo tratava-se de histeria coletiva e os crédulos dizendo “eu avisei”.

Durante três dias esses gigantes permaneceram pairando sobre alguns dos maiores países do mundo, compreende isso? Três longos dias.

Deixei minha casa no começo do segundo dia... As maiores potências do mundo não foram pegas de surpresa enquanto dormiam. Houve tempo para carregar armas, fazer planos, reforçar defesas e, mesmo assim, quando o terceiro dia chegou essas nações foram obliteradas por aquelas imensas caravelas.

O que me trás até o dia de hoje... Isolado no meio do mato, comendo enlatados e conversando com um cachorro... Você, meu amigo de quatro patas, foi a coisa mais próxima de uma companhia viva que encontrei em semanas.

Os invasores não devem ter hesitado em nenhum momento enquanto reduziam nossas cidades ao pó. Imagino que, para eles, éramos só um bando de tribos desorganizadas, selvagens, espalhadas em locais diferentes e que viviam lutando entre si...

Creio que ninguém questionou as ações deles.

Não houve sequer culpa.






...

Comentários

Culpa...
Não importa em que sentido ela é empregada.
(Subjetivo, intersubjetivo e objetivo)

Se aquele que deveria a 'ter',não sabe o que é 'sentir'!

Parabéns...Sr. Escritor.

Deveras, ainda sou cativa da sua Arte de Escrever!

Bom, lê-lo.*

Abraço.

F.G.