Sim, Marco Feliciano nos representa.



art by ~EveyD


Desculpe afirmar, afinal, você realmente não acredita que isso seja possível e eu não posso culpar essa linha de pensamento. Sendo justo, ninguém, além de você mesmo, conseguirá representá-lo.
Ninguém será integralmente você.
Agora que temos isso claro, agora que sua singularidade está protegida e resguardada por essa redoma invisível e mágica, podemos prosseguir e reconhecer que, sim, o pastor Marco Feliciano nos representa, senão perfeitamente e de forma individual, ao menos, de modo coletivo.

Ele nos representa... E representa muito mais do que apenas o nosso tempo. Se essa afirmação fosse falsa, viveríamos em um mundo ideal onde desigualdade, guerra, injustiça social e violência não existiriam.
Mas elas existem.

 Ele existe... E nos representa.

Todos nós que, por acaso, estamos aqui nesse mesmo planeta. Todos nós que sabemos, sentimos ou, ao menos, temos a leve impressão que algo está terrivelmente errado e que, mesmo assim, permanecemos dóceis diante de toda essa dor.
Aceitando-a como eterna e imutável.

Essa dor também nos representa.

A existência desses males é nosso cartão de visita como civilização.

Ao contrário do pode parecer inicialmente, Feliciano não é somente a voz do fanatismo religioso. Compreende isso? Ele sintetiza os demais cidadãos medianos e não afeitos ao extremismo que, silenciosa e espontaneamente, repetem frações das ideias e conceitos do deputado.
 Feliciano representa todas as outras pessoas, tomadas como simpáticas, normais e produtivas que, ao falar sobre suas crenças acreditam, de coração, que seu Deus é a única opção religiosa correta.

Nas entrelinhas macias dessa afirmação, está o discurso raso que tem gerado guerras e mortes ao longo de toda história humana:

“Eles todos estão errados”,  “Apenas eu  serei salvo, absolvido, amado...” “Somente nós teremos acesso ao clube vip do paraíso com suas ninfas e piscinas térmicas.”...

Evidentemente compreendo que religião não resume-se a isso, mas, devemos observar que dificilmente tenha sido o “Amai-os uns aos outros...” que desencadeou as guerras santas. Nós nem sequer demos muita atenção a essa parte.

Concentramo-nos nos pedaços afiados dos dogmas e doutrinas, aos quais, agarramo-nos desesperadamente durante toda história humana e que, orgulhosamente, empunhamos em nossos embates e conflitos. Definitivamente não foi o “Amai ao próximo...” que nos trouxe até aqui.
Foram as outras partes que escolhemos para nos proteger e representar.
Aquelas, que nos davam a certeza de estarmos certos. Aquelas que distorcemos até estarem perto de nossos próprios gostos. Aquelas que conferiam um propósito a nossa selvageria.

Feliciano, tente perceber, não é o discurso homofóbico bruto e evidente.
Ele nos representa de um modo mais sutil. Representa a multidão de outras pessoas tidas como boas que dizem:
“...até tenho amigos gays”, “Não acredito que ela é gay bonita daquele jeito.”, “Ele é gay mas é uma boa pessoa.”
O pastor é uma pequena parte de todos esses discursos, um pedaço primitivo e reptiliano de nossos conceitos e que realmente julga-se superior e melhor.

Ele pode ser a voz exposta da extrema direita racista, mas, ao mesmo tempo, é o pensamento discreto e sigiloso de gente amistosa, sorridente e comum que acha normal dizer:
“Tenho alunos negros que são tão inteligentes quanto os brancos”, “Esse projetos de bolsa escola, bolsa família, bolsa marmita e bolsa não sei o que, são coisas para vagabundos e encostados.”

A voz de Marco Feliciano não limita-se apenas aos brancos que acreditam ser melhores do que as outras raças. Isso seria pouco. Falamos aqui de algo justo e plural.
Ele é a classe alta e média brasileira que, velada e profundamente, sente-se contrariada com a presença de negros, mestiços ou pobres em seus centros de compras ou ambientes de convivência social.
Ele é também a expressão dos negros, mestiços e pobres que hostilizam imigrantes bolivianos ou haitianos apenas pelo prazer de colocarem-se superiores a outra pessoa ou por acreditar que, estes, estão aqui para roubar seus salários.

E finalmente... Ele foi eleito. É fundamental lembrar isso.
O pastor foi uma escolha consciente e tornou-se a voz de muitos dos piores aspectos presentes em todos nós.  Se não somos responsáveis diretos pela quantia final de votos, somos, no mínimo, cúmplices na elaboração de um sistema que cria continuamente novos Felicianos, Mirians e Bolsonaros.

Sim, ele representa nossas partes mais egoístas e assustadas.
Nossos medos e conceitos.
Ele é a soma de inúmeras características que teoricamente achamos repulsivas, mas que socialmente praticamos e repetimos sem questionamentos ou dúvidas.
Marco Feliciano é você empurrando as pessoas no transporte público para garantir um melhor lugar no meio daquele caos de corpos, bolsas e obrigações.
Ele é você, no bar, comentando com desdenho a opção sexual da nova supervisora da empresa ou do ator da novela das nove. Ele é você, no carro, gritando para a moça que está na calçada e tratando-a como um pedaço de carne. É você, no restaurante ou cinema, indignado quando um negro aparece acompanhado por uma loira ou quando dois rapazes estão de mãos dadas.
Marco Feliciano é você.

Ele representa você cada vez que acha normal uma pessoa ficar esperando na fila do atendimento médico por quatro horas ou quando quarenta alunos são espremidos em uma sala de aula pública de onde sairão sem saber ler, escrever ou pensar.
Ele é você, quando lhe parece aceitável pagar um salário de fome para empregadas ou professores.
Ele é você, quando acha que o valor de uma pessoa pode ser medido por sua posição social ou  dinheiro.

Cada vez que você pensa somente em seu próprio bem estar e aperta o foda-se para todas as outras pessoas do mundo porque os seus sonhos, sentimentos e necessidades são mais importantes do que todos os demais.

Ele é você.

Sim, ele representa você.
Você.
Eu.
Todos nós.

E enquanto não percebemos que há um “todos nós”, enquanto não procurarmos entender por qual razão e a quem ele representa continuaremos todos sendo Feliciano.

Permaneceremos, todos, muito bem representados por ele.


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