Sobre o poder, borboletas e abelhas.


Cassius Clay (later Muhammad Ali). 1963
Photo: Len Trievnor


Algumas pessoas acham que um minuto é pouco tempo.
São apenas 60 segundos. Antes que você note, logo termina, não é?
Bem...  Se acredita nisso troque de lugar comigo e com certeza você vai compreender o caráter relativo do tempo.
Aqui, onde estou, um minuto é uma vida inteira.

O meu minuto são todas as vezes que eu fui chamado de preto imprestável.
São todos os dias que não pude sair e fiquei treinando durante a noite, são todas as coisas que não pude comer. Todo o dinheiro que não tive e todos os olhares tortos que recebi antes das pessoas começarem a sorrir para meu cartão de crédito.
Aqui, pressionado contra as cordas, ouvindo o grito da multidão e o escutando o som dos meus ossos estalando, um maldito minuto dura toda uma vida.

Tente imaginar o que é ser golpeado por alguém com quase dois metros de altura. Cada soco, cada um deles, atinge meu corpo com o peso aproximado de cento e vinte quilos. É como ser atingido por um martelo de pedra. Um, dois, três golpes destes dentro de um espaço mínimo de tempo.
Segundo depois de segundo, até, finalmente, o minuto terminar e quando isso ocorre você sabe que deve aguentar o minuto seguinte.

Eu estou lutando com a nova esperança branca de algum lugar do leste europeu, mas tudo o que vejo é uma sombra.
Tudo o que enfrento é o meu reflexo.
Antes, via adversários, inimigos e eles eram bons, me ensinaram muito. Fizeram-me sentir vivo embaixo de seus socos e como Bismark disse... “Se você sobreviver a um adversário digno, verá que sentirá falta dele.” Ninguém deveria subestimar a capacidade de ensino de um bom soco. Hoje eu sinto falta do desafio.
Porque agora sou eu que decido se vou ou não perder.
Essa escolha é minha, só eu tenho esse poder.

Quando acho que é conveniente me esquivo e meu adversário acerta outros três socos no vazio. Cada um deles tira um pouco mais do seu equilíbrio.

Isso é poder.

Bauman diz que o poder é a habilidade para fazer coisas.
Foucault diz que o poder está em toda parte; não porque contenha tudo, e sim, porque provém de todos os lugares.
Li cada um desses filhos da puta para tentar entender porquê eu apanhava do meu pai quando tinha sete anos e por qual razão vou começar a bater nesse infeliz diante de mim até ele esquecer o próprio nome.

Não encontrei respostas... Apenas o ato.

Os socos aqui são nada. Nada, entende?
Muito mais leves do que qualquer um que já tomei da vida.
Depois de me esquivar olho para minha sombra e a chamo para dançar.
Eu não planejo, não penso, não lembro o nome dos golpes, não imagino a sequência.
Apenas vejo um espaço aberto na guarda dele e acerto seu rosto, consigo sentir meu punho empurrando a carne. Outro espaço e um soco no peito e um novo espaço, junto do queixo.
A queda acontece devagar, seu cérebro está desligado, ele nem sabe que está caindo ou que perdeu essa luta. Ainda consigo acertá-lo duas vezes antes do juiz se jogar na minha frente e terminar a luta.

A despeito de toda teoria, filosofia e masturbação mental sobre o assunto.
Sou eu que continuo de pé.
Entende?

Isso é poder. 

...

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