Uns aos outros.



Minhas roupas são azuis.
Um tom muito escuro e especial de azul chamado prussiano.
Talvez você não se lembre dele ou talvez apenas não conheça, então, permita-me apresentá-lo.
Sabe quando você olha para algum ponto profundo do céu e essa cor parece tão impessoal e distante? É esse azul.
Eu consigo ouvir as bombas perto daqui. Escuto o som de paredes quebrando e do chão tremendo. Posso ouvir as preces incompletas e interrompidas, as sirenes e as súplicas.
Os lamentos e gritos.

Eles vão correr até o prédio e tentar encontrar alguém vivo.
A esperança é a maior dor humana.
Sinto algo sob meus pés, abaixo da pilha de escombros, mas isso não tem importância.

Consigo ouvir as explosões em volta de Yerushalaim, e mesmo que ela continue intocada, como sempre pareceu manter-se, também posso sentir o inferno em torno dela.
Impregnando-se.
Totalmente infiltrado.
Perfeitamente equilibrado.

O mesmo inferno onde ela sempre pareceu-me imersa.
Durante seus infanticídios, genocídios, ações preventivas, guerras e cruzadas.

Tenho a honesta sensação que sempre foi assim.
Eles a desejam, mesmo que rodeada por morte, caos e guerra.
Eles a desejam tanto.
Toda essa dor.

O paraíso na terra.

Os mísseis, os fuzis e tanques... E antes disso os cavalos e espadas... E antes disso as pedras.
É certo que se voltasse um pouco mais no tempo encontraria dois monstruosos lagartos devorando-se por este mesmo punhado de solo árido e pedras.

Sinto algo sob meus pés.
Agacho-me para escavar o chão e os escombros. Não vejo mal nisso.
Estou acostumado a abrir caminho para baixo e viver no sob das coisas.

Tiro a terra até encontrar uma pequena mão e um braço. Não deve ter mais do que 3 ou 4 anos acho... Tenho o trabalho de cavar em torno do corpo da criança, seus irmãos devem estar aqui também, uns palmos abaixo do edifício destruído, entre os blocos e objetos fragmentados e incinerados.
Sua mãe deve estar aqui também.
Seu pai deve estar em outro lugar, aqui perto, tentando compreender o que é toda essa agonia que sente e, sem dúvida, preparando-se para retribuir, dividir e multiplicar a sensação.

Eu vejo seus olhos e o rosto, cinzas e cobertos por cimento. Coloco-o em meu colo.
Sinto-me quase compelido a embalar seu sono com alguma cantiga.
Não há respiração. Só há dor.
Maliciosa e pura.

Confesso que sinto-me desamparado pela inevitável sensação de não ser mais necessário.
Talvez eu precise de um novo emprego  
Talvez o ser humano, finalmente, não precise mais de um diabo..

Eles têm uns aos outros.

Sabe... Acredito realmente que quando disseram a eles amai-vos... Alguma falha ou surdez repentina fez eles entenderem:

Odiai-vos.

Uns aos outros... E como odeiam a si mesmos.


...

Comentários