Corpo Negro

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Os cabelos castanhos, insistiam em cair sobre os olhos claros dela. Isso a fez parar por um momento e quase imediatamente voltar a se mover, para lembrar que estava viva.
A pele muito clara, permanecia em contraste com as roupas negras. Camadas de tecido elegantemente dispostas sobre o contorno dos ombros e costas, a costura detinha e libertava os traços negros das tatuagens, quebrando-as como peças isoladas de um quadro maior e perfeito.
Existia ao redor dela um perfume doce alimentando-se do ar e uma presença, que lhe conferia seis longas asas.Para que assim ela não fosse cega, guiada ou tocada pelo mal.

Enquanto ouvia "The More You Ignore Me, the Closer I Get" minha amiga olhava para tela de pintura estática, pousada silenciosa à frente dela como um segredo a ser violado. Como um espelho a ser quebrado. A imagem plana e branca mantinha-se fechada, em tons claros de zinco e titânio.
Mas seria aberta. Decifrada.

Ela inclinou a cabeça para esquerda, depois levemente para a direita. Cantando baixo junto com Moz, sem nenhuma pressa, deslizou um dos pincéis sobre o preto marfim acumulado em um dos cantos da paleta e usando movimentos que lembravam pequenos redemoinhos impregnou o objeto com um pouco da escuridão da noite.
Os primeiros traços foram firmes, rompendo o vazio da tela sem ainda definir um sentido.
O propósito deles; era romper a impenetrável e estabelecida claridade. Aquela soma previsível e segura de todas as cores e transformar o certo em pergunta. O óbvio em curiosa dúvida.

O propósito dela; sempre foi contestar as certezas absolutas e imutáveis existentes na vida. O que é considerado, visto ou tido como correto para o mundo, para ela era passível de mudança.
Sua devoção parecia voltada aos perdidos, desviados, anarquistas e revolucionários... Por todos aqueles que vem para essa vida para queimar, ardendo feito estrelas. Para aqueles que nasceram para brilhar e resistir.
Para os que vivem como explosões, que existem para devorar e não para ser devorados.
Exatamente à imagem e semelhança dela.

Para os tornados nossos de cada dia, e um dia, seus protegidos à tornariam santa entre os demônios. A razão entre os poetas e a causa para as poesias.

Os traços seguintes que nasceram nas mãos dela vieram com força febril, estabelecendo o que por todas as definições não existia. Valendo-se da tinta negra para corromper o espaço, ela com vigor e determinação evidentes criava do nada, uma seqüência completa de imagens, cenas e fragmentos de tempo capturados.
São mares repletos de casas, olhos fundos de serpentes, relógios flutuando em ruas tramadas com cristais de gelo. Sistemas de estrelas despidas e alteradas. Inevitavelmente girando e girando, dançando, em longas espirais enquanto eram tragadas por um misterioso corpo negro de gravidade irresistível, oculto nos traços sobrepostos feitos por ela na pintura abstrata. Indecifrável nos mesmos segundos em que era transparente.

Ela era esse mistério oculto nas gravuras e quadros. A força criadora de atração irresistível que parecia aguardar o encontro com alguma barreira irremovível, para assim, tornar-se ainda mais intensa.

Tornar-se um corpo negro, assumir sua gravidade e densidade brutas. Fascinantes, das quais ninguém e nada é capaz de escapar.
Ela sempre tem o que deseja.
Tornar-se um corpo negro, refletir o nada e compreender que ele dava-lhe tudo. Todas as possibilidades para errar, sentir e criar novos mundos.
A ela tudo deveria ser possível.
Tornar-se. Verter, irradiar a partir de seu centro tudo, o todo.
Decantar a alma.
Diluir a beleza de seus lábios, corpo e palavras.

Dar vida aqueles traços, pessoas, amores, sonhos, amantes, desejos e atos.
E quando finalmente ela termina, quando suas mãos abandonam suas tintas e pincéis mergulhados em solventes. Ela observa sua criação. E descansa em seu sétimo dia.

Observa.
Um corpo negro absorve tudo.
Reflete nada.
E erradia tudo.

Moacir Novaes. - Dedicado à Paty "PopLoveArt".

Comentários

Zé Raimundo disse…
Não resisti e li o texto ouvindo "the more you ignore me, the closer i get" (3 vezes) .É incrível como o Moz faz tudo ficar tão diferente, tão poético. O seu texto é ótimo, a sutileza da atmosfera melancólica que você criou, é muito convidativa à adentrá-la e ficar flutuando em meio às pinceladas que circundam esse ser tão cheio de idéias e mundos que irradiam das tintas.