A diferença entre ir e avançar.

Existe um ponto comum, aparentemente invisível, entre nações e pessoas.
Algo, intangível, que aproxima e existe em instituições, símbolos, governos, entidades e dentro das pessoas que pensam e preenchem esses conceitos mencionados. Uma irresistível fome que as idéias e os pensadores dividem entre si; uma necessidade natural de avançar.
Progresso, é como chamamos esse constante e visceral desejo de movimento que une nações e pessoas, a busca intuitiva por novos limites, somente para que estes uma vez estabelecidos possam ser desfeitos e então outra vez procurados. Prosseguir, através de uma vontade indestrutível, coletiva ou individual é o que faz cada ideal e pensamento desdobrarem-se em caminhos, anseios e desafios.
Não falamos ou tratamos aqui de uma força controlável, o progresso não pode ser detido, porque sua mera existência exige a mudança contínua, é isso que o alimenta e impulsiona. No entanto, à semelhança de tudo o que existe, o progresso não é invulnerável aquilo que está próximo dele. Assim como você, ele busca um sentido no avançar.
A obtenção desse sentido estará ligada aos fatores externos que acompanharão ou estarão ausentes ao seu movimento e é exatamente nesse momento que discutimos sobre a ética. Ela não é o limite para o progresso, não irá detê-lo e de modo semelhante, também não irá impulsioná-lo. Porque seu papel nessa trama e teia delicadas, não é delimitar ou conduzir a mudança.
Sua função real é aferir sentido ao ato.
É exatamente o fato da ética não deter ou domar o progresso, que torna a existência dela nessa equação uma escolha. Você possivelmente já deve ter deduzido que não precisa dela para decifrar o código genético humano, movimentar a economia e governo de um país, descobrir e explorar novas e antigas formas de energia ou para estabelecer e redigir leis ou diretrizes públicas. Você pode iniciar e concluir esses planos sem a presença da ética, mesmo em uma situação simples, no trânsito, na sua família, em seu trabalho isto é possível .
A ética, como dito antes, é uma escolha. Uma escolha que é sua e das pessoas que estão ao seu lado, na esquina, no governo, pagando seu salário ou sendo pagas por você. A escolha, que tem o poder de diferir o que é apenas ir e o que é avançar de fato, e parecemos infelizmente extremamente aptos a escolher somente ir, mais e mais rápido, andando em círculos, cometendo os mesmos erros, as mesmas injustiças.
Mesmo sem alterar o ritmo do progresso ou definir seu limite, a ética estará presente quando for necessário decidir o que fazer com o conhecimento obtido durante anos de pesquisas, ao estabelecer como e quem será beneficiado ou prejudicado pelas ações governamentais. No momento em que for preciso gerar ou consumir os recursos naturais, nas divisões e somas que giram a sociedade. Nas decisões individuais, quase invisíveis, do seu cotidiano. Na separação entre o que você pode ganhar e aquilo que deve fazer, na parada antes do próximo passo. A ética é fundamentalmente o lembrete que cada gesto seu está interligado a outros, cada ato seu desencadeia outros tantos atos e exatamente por isso é preciso considerar o que o seu lucro, benefício ou desejo irá representar diante das necessidades coletivas. Essencialmente, porque você também faz parte desse coletivo. Você, assim como todos nós, será inevitavelmente atingido pelo eco dessas escolhas. Compartilharemos a insensatez de um futuro egoísta e desconexo, curvados diante dos horrores que criamos, dos lobos que alimentamos ou dividiremos um propósito comum e as realizações possíveis em nome de todos. Porque todos nós podemos ter o progresso, exilado como um fenômeno exótico e mesquinho ou unificado e coletivo. Nós realmente podemos ter o que desejarmos, resta definir o que iremos desejar.
Sem ética, não teremos evolução real ou sentido. Não teremos propósito. Sem a presença dela, você e a sociedade onde vivemos, somente terão em mãos uma nova invenção para o retroceder, um lucro que não irá cobrir os prejuízos, um sem fim de passos largos com destino marcado para parte alguma.

Afinal, é na ética que está a diferença entre apenas ir para lugar nenhum e avançar rumo ao progresso.

Comentários

Filipe disse…
Reflexão brilhante!
Ainda que muitos saibam teoricamente o que é ética, nem todos sentem de fato uma necessidade ou senso do dever em relação a ela. Eu não sinto...
Mas admiro profundamente quem sente. Pra mim é só uma idéia oca (ímprescindível, mas que não encontra ressonância no meu peito), assim como a democracia, o amor, o ciúme, o estado de direito ou o patriotismo...
Juliana Delmonte disse…
Bom o texto.
Aliás, deveria ter ganhado o bedito prêmio para o qual foi escrito...

Moa, você tem a capacidade de pensar - e mais! - de induzir os outros a pensar...

Acredito que a idéia ética pode ser corrompida pela inércia - ou pela simples e deliciosa preguiça mesmo...

;)