Jogo de Espelhos.


Eu não tinha o hábito de fazer essa pergunta.
Basicamente, porque a despeito de teorias conspiratórias e do poder imaginário da "mão invisível", eu via o mundo como uma soma de fatos isolados.
Próprios do cotidiano e da vida em sociedade, eu enxergava nos jornais e meios de comunicação somente dados aleatórios e não intenções conscientes.
Ocorrências pontuais, peças soltas sem qualquer ligação aparente, que desabavam sobre si, acumulando-se, anulando-se e na mesma velocidade que apareciam elas desapareciam. Nenhum grande plano ou intenção oculta.
Essa visão despreocupada é natural, ninguém sai de casa procurando monstros em cada esquina. Vemos apenas ruas, uma sucessão delas, acompanhada por outra porção de esquinas.
Não vemos monstros, basicamente porque eles não existem. Bem...
Não existem mesmo?
Com o passar do tempo notei que todos os fatos precisam de dois elementos constantes para serem formados, precisam de uma causa e de uma conseqüência.
Tanto a causa como a conseqüência dividem algo entre si, as duas estão ligadas por uma mesma pergunta.
"Cui prodest." A quem beneficia?
Essa pergunta, por si, cria outras perguntas e muitos monstros; é ela que nos conduz a pensar sobre a soma dos fatos e se isso ainda não estiver claro para você, permita-me explicar, tornar-me compreensível e incômodo.

A quem beneficia cada guerra e conflito existente no mundo? Porque sim; guerras vão sempre além de ideais políticos, religiosos ou étnicos.
Fundamentalmente toda guerra é lucrativa, se não fosse simplesmente não seria tolerada, se todos perdessem ela não seria sequer iniciada. Mas se começa, prolonga-se e parece sem fim é certo que beneficia alguém.
Quem lucra com a fome que a gerações assola determinadas regiões do planeta? Porque seguindo o mesmo princípio exposto, alguém lucra ou a situação simplesmente não seria tolerada.
Quem ganha com cada nova forma de medo global, com cada ameaça a suposta ordem estabelecida? A quem beneficia a crise do petróleo, do terrorismo, dos alimentos e do clima? Por que todas as situações e decisões em esferas distintas de poder parecem sempre guiadas para a geração e incidência de novas crises periódicas? Quem lucra com essas ocorrências? Se todos perdessem, os carros vendidos seriam movidos a luz solar, biocombustível, hidrogênio ou eletricidade, mas alguém parece ser beneficiado com a falta, a escassez, a fome, a ausência e isso muda muitas coisas. Se todos perdessem não haveria miséria, mas alguém ganha com isso. Quem? Por que?
Quem se beneficia quando todo um sistema de educação torna-se ineficiente, restrito e sucateado? Quem lucra com a ignorância?
Quem é favorecido quando a população de um país percebe-se incapaz de contar com atendimento público de saúde? Quem ganha quando um país invade outro? Quando uma greve é decretada, quando determinados preços sofrem aumento ou baixa, no momento em que a impressa posiciona-se fora da neutralidade apoiando um ou outro lado, quando um imposto é criado ou é criticado. A quem beneficia? Por que algumas notícias são repetidas e outras ignoradas? Quem escolhe isso? Por que?
No trânsito, na segurança pública, no comércio, em cada fato que atua sobre você, alguém será beneficiado.
Mas quem? Por que?

E claro resta uma pergunta... por que você não pensa nisso? Não me diga que os monstros assustam você, porque definitivamente não são eles que me assustam.

O que me assusta é você nunca ter questionado isso.

Comentários

Zé disse…
Oi Moacir.
Como sempre, um belo texto.
Lucien Goldmann fala sobre isso com uma clareza absurda em "A sociologia do romance" de 1967.

"A vida econômica assume o aspecto do egoísmo racional do homo oeconomicus, da busca exclusiva do máximo de lucros, sem qualquer preocupação pelos problemas da relação humana com outrem e, sobretudo sem qualquer consideração pelo todo. Nessa perspectiva os outros homens tornar-se-ão, para o vendedor e o comprador, objetos semelhantes aos outros objetos, simples meios que lhes permite a realização de seus interesses e cuja qualidade humana única e importante será a capacidade para concluírem contrato e engendrarem as obrigações constrangedoras" (Goldmann, 1967, p178).
Juliana Delmonte disse…
Como sempre, muito lúcido.
E toda essa lucidez tem seu preço.
Alienação significa, até certo ponto, tranqüilidade.
A questão é: para quem vale a pena perguntar-se?
Se não sabemos nem quem, como saber como?