A era do Torpor

Art by Banksy


Aproximadamente 900 pessoas morreram durante as chuvas que atingiram a região serrana do estado do Rio. Peço desculpas por usar a palavra aproximadamente, é incorreto usá-la, a imprecisão nesse caso chega a ser vergonhosa porque estamos falando de pessoas.

Deveria também pedir desculpas por minha espécie só perceber a morte quando ela ocorre simultaneamente para centenas ou milhares ou milhões de pessoas, no restante do tempo, ela sequer existe como conceito.

Imaginava que ter a consciência sobre ela era uma das características que nos separava dos animais. Talvez não seja mais.

Na época, quando ocorreram essas mortes, me senti tentado a escrever sobre elas, afinal, há um sentimento de comoção implícito nessas situações. Um choque imediato que exige resposta e que parece despertar e sensibilizar todas as pessoas; contudo, não redigi nenhuma linha, exatamente porque não queria ser movido pelo senso comum ou por respostas fáceis, e também, porque não desejava esquecer o que tinha ocorrido, desejava carregar isso comigo e saber por quanto tempo a memória dos fatos continuaria viva em mim, sem ser vencida ou substituída pela maré contínua de novas informações.

Bem...

Eu ainda lembro e confesso que imaginava se, ao escrever, trataria sobre o ato em si ou sobre suas causas e conseqüências.

O ato, a situação, repetia-se todos os anos, religiosamente, ano após ano.

As causas eram conhecidas e toleradas, assim como as conseqüências.

Ao perceber isso, compreendi que o que deveria ser dito não estava nesses pontos, mas sim, abaixo deles sustentando sua existência.

Por que não era a primeira vez? Deveria ser... A lógica indica que, as mortes e um desastre só poderiam ser aceitos se fossem imprevisíveis, incontroláveis, no entanto, nós sabemos as causas, sabemos o que ocorreu e o que irá acontecer.

Ano após ano as notícias são exatamente as mesmas variando somente na intensidade de seus danos. Nós sabemos o que vai ocorrer. Então... Por que aceitamos isso?

Por que permitimos isso?

Por que deixamos pessoas viverem em locais onde suas vidas estão em risco?

Por que achamos normal que essas pessoas não sejam educadas para compreender que suas vidas estão em risco?

Por que não são criadas alternativas de moradia, uso consciente do espaço demográfico e preservação ambiental?

Por que vivemos o hoje, como se não existisse amanhã e como se não houvesse um passado que pudesse nos ensinar algo?

Pensar em um futuro... Essa deveria ser a característica que separaria humanos de animais e que nos concederia o livre arbítrio para escolher nosso destino.

Somos capazes de desviar rios, gerar maciças quantidades de energia, estudar e visitar outros corpos celestes e tocar o fundo dos oceanos. Nós podemos extinguir ou criar novas espécies... E por tudo isso, alguém realmente é capaz de afirmar que devemos apenas aceitar, docilmente, que pessoas sejam soterradas por suas casas?

Aceitar, como parte do imponderável natural do mundo, que ainda exista fome, que existam doenças e guerras espalhadas em cada um dos continentes. Aceitar que convivemos a gerações com esses mesmos problemas, conhecemos suas causas, sabemos suas possíveis soluções e ainda assim, co-existimos com eles como se fosse uma situação estável. Como se não houvesse amanhã ou ontem.

Isso não está correto, não contém em si propósito, tão pouco, sentido.

Animais aceitam.

O ser humano questiona.

Animais aceitam e mesmo eles lutam para sobreviver e evoluir.

Nós não temos mais o direito de somente aceitar.

Não se trata de ter a pretensão de dobrar o meio em que vivemos, mas somos capazes de escolher, isso nos faz humanos, a capacidade pensar em um coletivo, de imaginar a existência de um futuro e moldá-lo ao invés de somente reagir e nos movermos quando somos ameaçados ou quando nosso estado de conforto é modificado.

Animais reagem.

Humanos pensam, planejam, perguntam, buscam respostas, estudam e lutam para mudar e evoluir.

Desculpe apontar o óbvio, mas, evoluir é mudar.

E nós não temos mudado, temos deixado de lado o que nos definiria como espécie. Acredite-me, embora seja importante para a ampliação de nossa percepção e dos horizontes, não é o fato de sentarmos nossos traseiros em um foguete e pisarmos na lua que indicará como nossa espécie é evoluída.

O que vai demonstrar isso é simplesmente não aceitarmos mais, como algo normal, que pessoas passem fome, sejam mortas ou tenham suas vidas destruídas enquanto permanecemos isolados em nossos pequenos e customizados mundos.

Bertold Brecht disse em um de seus textos:

“Fôssemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.”


Mesmo o que tratamos aqui não é algo novo... Então por que aceitamos isso?
Nós vivemos em torpor, imersos em nossos sonhos egoístas.

Despertos somente pela dor e logo adormecidos novamente.
Para escapar dela.

Meu medo é um dia nos tornarmos infinitos e ao invés de mudar...

Escolhermos dormir mais um pouco.

Moacir Novaes

Comentários

Palavras!! disse…
"" Aceitar a anulação,e a estagnação que uma sociedade caótica nos propoem... é algo passional... mas pior é aquela que nós criamos para nós mesmos... escolheno a mediocridade... de permanecemos cegos aos fatos da realidade."...........
Então a escolha sempre estará em adormecemos com a Dor, ou , acordarmos por ela!?

( Amei o texto.. leve e suave,em sua forma de conduzir.. como sempre.. Sr.:Escritor Parabéns!!)