Zumbis.



Os primeiros filmes sobre zumbis continham, nas suas entrelinhas, uma crítica ao modo como progressivamente a sociedade estava abrindo mão de seu livre arbítrio e de sua habilidade em questionar, refletir e pensar sobre suas ações.
A imagem conhecida de zumbis buscando desesperadamente os cérebros dos vivos, em outras palavras, era uma analogia a crescente massa de pessoas incapazes de pensar por si mesmas ou de guiar suas próprias vidas. Esses zumbis formavam um aglomerado, disforme e violento, de seres vazios que atacavam tudo a sua volta de modo quase parasitário.
Os vivos, nessa situação e em outra analogia, seriam os poucos indivíduos ainda capazes de atos teoricamente simples como pensar e escolher.
Ações imperdoáveis e altamente arriscadas dentro desse contexto.

Exposta a origem desses termos e as ideias por trás deles torna-se um pouco mais fácil encontrar seus ecos naquilo que chamamos de real.
Permita-me explicar.
Na cidade de São Paulo, existe uma região chamada de cracolândia, ela fica bem no centro antigo entre prédios e grandes avenidas. Tornou-se comum, até certo ponto, tecer uma ligação entre a imagem esquelética, esfarrapada, violenta e surreal das centenas de viciados e a figura dos zumbis. O termo “Zumbis da Cracolândia” pode até ser descrito como popular, uma designação que tinha por objetivo atestar que a venenosa droga teria tomado deles a humanidade, liberdade e seus pensamentos.

Ok.
Então que tal nós ampliarmos isso?
Já que pretendemos ser sinceros em nossos julgamentos sobre o estado,vida e realidade de outras pessoas que tal aumentarmos nosso campo de visão. Afinal ao falarmos sobre um determinado assunto é importante compreender tudo o que cerca o tema. Os detalhes, os motivos pouco evidentes e encontrar, na soma disso, as razões que dão origem a um fato.

Sabe... O conceito mencionado de zumbis é incrível e assustadoramente elástico.
Isso significa que ele, embora seja mais evidente ao ser aplicado sobre pessoas que não tem quase nada a perder vagando como fantasmas de olhos apagados por ruas sujas, também pode ser utilizado para outras situações e para outros grupos. Essa fluência, de um caso para outro, é o que indica que o termo zumbi não está restrito a um único contexto.

Afinal você realmente acha que continua pensando quando passa indiferente por essas pessoas? Sim, aquelas pessoas que, pouco antes, eram definidas como zumbis.
Acha que está longe de ser um morto vivo quando coloca seus fones para não ouvir mais todas as vozes, súplicas e sons que rodeiam você no ônibus, metrô e ruas lotadas.
Você acredita mesmo que é diferente deles apenas porque usa roupas melhores ou drogas mais caras?
Acha que continua pensando quando se afoga em todas as possíveis formas de diversão para nunca ter que refletir ou questionar algo ou a si mesmo.
Acha que continua pensando quando começa a dizer que “alguém” deveria fazer algo sobre esses problemas... “alguém” que, claro, não seja você.

Desculpe mas, de um zumbi para outro...
Talvez o primeiro passo para acordar seja você perceber que também está dormindo.



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Comentários

Palavras!! disse…
Intransigente!... Eloquente!Como sempre... bom reler suas palavras...
Das quais ainda cativa sou.

Parabéns! Belo texto.

Abraço.