
O silêncio comum, encontrado em todas as noites do mundo, foi substituído por aplausos.
Gosto do som deles.
Não posso negar, mas não é por isso que estava ali.
O cenário é fácil de ser descrito, de uma forma ou de outra, está presente no inconsciente coletivo.
Os gritos, os risos e os aromas mágicos de pipoca, algodão doce e goma de mascar.
Eu gosto de tudo.
Não é por essas coisas que estava ali... Mas o sabor delas é fabuloso
Os repetidos erros e desvios, claro, contribuíram para meu estado atual.
Minhas falhas, minhas perdas, tudo o que é meu... Essas pontas soltas me transformaram no que sou, contudo, não é por nada disso que estava ali.
Sabe... A vida sempre me deu muitos motivos para rir.
Ela é cheia de ironias.
A vida, enquanto flutuamos soltos no vácuo do espaço indo do nada para o lugar algum, é a mais refinada ironia criada.
A grande piada.
Quando eu era criança a figura dos palhaços me assustava, lembro que as pessoas riam de mim e eu detestava isso.
Irônico não?
Ao menos agora eu sou pago por esses risos.
As luzes que iluminam o picadeiro dançam sobre os artistas, exaltando sua forma física, seus feitos, a habilidade que possuem para fazer o que aparentemente é impossível, não seus erros. Não eu.
Sob os holofotes doze malabaristas e ginastas abandonam o palco.
Eles são aplaudidos com entusiasmo, sei que terei algum trabalho essa noite.
Agora é minha vez.
Já fiz isso centenas de vezes e ainda sinto um frio correr minha espinha.
Adoro esse inominável medo.
O mestre de cerimônia anuncia o próximo número, meus devaneios se desfazem, não existe mais um passado para ser lembrado ou um futuro para lamentar, tudo o que importa para mim é o presente imediato.
Escuto meu nome ser repetido no palco, "Jogral!".
Algo que estava trancando começa a tomar conta do meu corpo.
Uma ideia que faz a maquiagem que cobre meu rosto transformar-se na minha segunda pele e adquirir sentido.
Ajeito as calças largas, a flor na lapela do casaco e os outros truques. Assim que saio da coxia as luzes fixam-se em mim, estou calmo e apreensivo, tudo ao mesmo tempo.
Este é o meu lugar.
Ando até o centro do picadeiro e fico parado, imóvel, encarando o público. Abaixo da pintura vermelha e preta abro um sorriso tímido.
Quatro segundos.
Talvez três.
Até que outros sorrisos comecem a aparecer na multidão.
Feito isso, depois que consigo o primeiro sorriso, tudo mais vem fácil.
Corro de um lado para o outro, brincando com o invisível. Dançando com o imaginário. Pulando e rindo.
Algo ridículo na forma do movimento, no exagero das coisas que faço ou na falta do que tenho, leva os adultos a sorrir.
Seu riso é diferente. As crianças se divertem com a ilusão dos meus gestos, me seguem no mesmo ritmo, mas para os adultos são minhas falhas ensaiadas durante horas que contam. Em essência e como última palavra um palhaço é um erro feliz.
Apenas um erro feliz.
O público, por breves momentos, esquece seus problemas.
Esse é meu abracadabra.
O número termina entre aplausos.
Estou longe das luzes. Contudo ainda não saio de cena.
O show deve continuar. Afastado, entre dobras e vãos de uma das cortinas vermelhas do picadeiro, observo outra apresentação, a confiança dela é quase sólida.
Esse é o lugar dela.
O mestre de cerimônias anuncia seu nome para o público. Perdi o número de vezes que presenciei este momento, conheço as entonações na voz do locutor, sei de cada inflexão e mudança.
"Com vocês a rainha das feras.......Raaaaquel.... Celeb!"
Raquel é um nome que em uma tradução aproximada significa cordeiro.
Ela é uma domadora, percebem?
Um cordeiro que doma leões. Irônico não?
As luzes buscam sua silhueta, seu rosto impressiona pela beleza, considero que podem ser só os meus olhos que decidiram achá-la linda.
Ela se veste com roupas negras e brancas, intencionalmente contrastantes, seus cabelos são castanhos, um pouco afogueados, como a cor do cobre, brilhante, rubro pelo calor.
Cabe a ela dar ao público um pouco do sabor do medo.
Isolados por barras de aço reforçado, a metros de distância, inofensivos em seu cativeiro e mesmo assim, a simples presença dela entre os leões é o bastante para causar o mais pesado silêncio nos presentes.
Leões treinados, bem alimentados, domesticados é verdade, mas um leão é sempre um leão e nem todos devem saber que foram domados.
Eles caminham de um lado para outro, quatorze animais ao todo.
Sei que matariam outra pessoa que tentasse entrar na jaula em quinze ou vinte segundos, mesmo sem a técnica correta e precisão de seus primos selvagens, mas quando Raquel passa pela porta e caminha ao lado deles, vejo só gatinhos com duzentos quilos.
Conheço Raquel desde o meu primeiro dia no circo.
Conheço, algo difícil de dizer hoje em dia.
Nós somos amigos, tento veementemente acreditar.
Nós somos parecidos, tento esquecer.
Raquel ensinou-me sobre a coragem; e eu a fiz lembrar-se de como é fácil rir da vida.
Acho que foi isso que fizemos um pelo outro.
Não sei em que dia exatamente me apaixonei por ela.
Falando em amor, ela em uma dessas noites, me contou sobre seu amor.
Um trapezista, famoso, um dos mestres da Escola dos Irmãos Voadores da Espanha, ele já trabalhava no circo quando chegamos.
Escutei da boca dela sobre como o amor entre eles era forte. Ouvi confidências e os planos que Raquel havia feito para o futuro.
Um futuro que ela esperava passar ao lado dele.
Que ironia não é?
O fogo é ateado no arco centrado dentro da jaula. As chamas refletem nos olhos dela, com a voz ríspida ela chama os animais; um a um eles atravessam as labaredas. Depois ficam de pé sobre suas patas traseiras e agradecem ao público.
O número termina.
Sinto a respiração do público voltar, o alivio que vem junto com muitos aplausos.
Abandonando o palco ela vem até onde estou e juntos esperamos o próximo número.
A apresentação dos trapezistas, em quase todos os circos, é a atração principal.
Eles são diferentes de mim em muitos aspectos.
Afinal quem já ouviu falar em um palhaço que morreu enquanto fazia sua apresentação no picadeiro? Nem se ele morresse de rir.
No trapézio não existe espaço para o erro, para uma improvisação repentina.
Não há graça em errar.
Pode somente haver perfeição.
Lógica calculada e precisão. Talvez isso tenha seduzido Raquel. A perícia, a força de cada gesto. O desafio declarado à morte, a coragem.
Luzes coloridas refletem a malha branca que os trapezistas vestem.
Posso ver, entre eles, o escolhido de Raquel.
Victor, ele é idealizado, perfeito e mesmo por outro homem seria considerado belo.
Minha garganta está seca.
Raquel e eu observamos ele e seus companheiros subirem até o trapézio.
Algo obscuro dentro de mim pergunta se as cordas estão suficientemente firmes, se tudo foi verificado três vezes.
E que Deus me perdoe pelo o que acabo de pensar...
Aproveito a proximidade para olhar o rosto de Raquel, suas feições estão sérias, preocupadas.
Seus olhos, fixos na figura dele, acompanham cada movimento no ar, cada respiração do seu amor e é amor o que sente. Profundo, lascivo.
Ela volta seu olhar para mim, por um único segundo, então sorri nervosa, apreensiva.
O mortal, o mortal duplo, em todo o circo nenhum som, nem mesmo o mais breve suspiro.
Não há palmas acompanhando as evoluções aéreas, o número precisa terminar para que alguém se manifeste.
É assim sempre.
A rede de segurança estendida sob os artistas é retirada.
Raquel, no primeiro movimento de Victor, prende uma de suas mãos ao meu braço.
Ela deve ama-lo muito, pois neste momento vejo algo raro nela, medo.
Por considerar que seu amante seja roubado dela pelas mãos de outra dama chamada morte. Aquela enfrenta que Raquel conhece tão bem e que apenas nesse momento parece ser real.
Vem o final com o mortal triplo sem rede.
Minha mão está sobre a dela.
O mortal triplo acontece e uma eternidade depois termina.
O som dos aplausos é ensurdecedor nos bastidores e na plateia, os gritos e saudações parecem vir de todos os lugares. Eu me afasto, como se não estivesse ali.
Posso descrever para você o que acontecerá mesmo sem estar presente.
Victor saudará o público, depois irá para dentro das cortinas enquanto o apresentador agradece a presença de todos e informa o fim de mais um espetáculo.
Raquel estará esperando por ele, ela irá beija-lo e eles continuarão juntos como é previsível.
A noite está fria, a multidão abandona o circo.
O show acabou. Um vento gélido passa por mim e deixa uma sensação completa e imensa de vazio.
Meus olhos ardem, sinto ódio por ser capaz de ama-la, por ser incapaz de ser amado. Sinto tanto ódio sempre por estar errado.
Por ser um erro.
Eu queria ser amado.
Queria que ela se importasse comigo. Meus olhos ardem.
Minha maquiagem começa a borrar.
Estou ocupado demais, sentindo pena de mim, para perceber a aproximação deles.
Uma voz cheia de vida me chama. "Mãe... Olha o palhaço! É o palhaço!" Segurando balões verdes e azuis duas crianças vem em minha direção.
Seus pais estão felizes com os sorrisos de seus filhos.
Eu quase me desespero tentando secar as lágrimas do meu rosto, não existe nada pior do que um palhaço triste, não é? Esfrego meus olhos, e distribuo a pintura molhada sobre minha cara. É de noite... Eles não vão ver. Espero que não vejam.
A menina, mais jovem do que seu irmão, começa a rir do jeito como pareço confuso, o garoto também sorri e me abraça. A alegria deles me faz rir.
Apanho balões em bolsos coloridos do meu casaco, junto com um pouco de purpurina e crio ilusões para eles. Faço mágicas, estendo um sorriso no céu e aponto para a lua minguante mostrando para eles que a noite também pode sorrir.
A mãe dos garotos diz que já é hora de dormir para as crianças.
Elas se despendem de mim como se me conhecessem desde sempre, ajoelho para receber outro abraço e aceno com um lenço branco enorme enquanto eles se afastam.
Minha vida é cheia de erros e sou o maior deles.
Não tenho mais vontade de chorar, não sinto também vontade de sorrir.
Fico calado, sentado do lado de fora, esperando o tempo passar e me levar com ele.
Uma hora, talvez duas de silêncio, tentando não imaginar como as coisas poderiam ter sido e então escuto passos e um choro contido, que jamais pensei ouvir um dia.
Raquel... Ela olha o nada e chora, com mais dor do que eu.
Espero no escuro alguns minutos, algumas vezes uma pessoa precisa chorar sozinha, somente quando ela fica em silêncio ando até onde está. Encosto uma das minhas mãos em suas costas, ela sabe que sou eu e nem se vira, só volta a chorar.
Não pergunto o que houve, não quero nem preciso saber. Se ela quiser vai falar, se ela precisar vai falar.
Sua voz está embargada, diferente.
Ela me conta sobre seu amor, que vai abandona-la para seguir carreira em outro circo, sobre seu amor que vai troca-la pela possibilidade de fama em um dos maiores circos do mundo e sobre uma escolha.
Uma decisão que foi tomada sem aviso, sem sentimento. Ele não queria sua companhia, não precisava mais. Não desejava os planos que Raquel havia feito para os dois.
Eu não queria chorar.
Não existe nada pior do que um palhaço que chora.
Quando terminou de falar ela estava exausta, o frio ou o cansaço a fizeram dormir em meus braços.
Nos dias seguintes vi Raquel desenvolver os olhos de um leão.
Tentei estar sempre junto dela porque era preciso.
Dediquei meus erros e minhas imperfeições para fazê-la lembrar de como é fácil rir da vida.
Lembro que em uma dessas noites em que estávamos conversando.
Pouco depois do encerramento do show daquele dia.
A maquiagem em meu rosto, as roupas coloridas em meu corpo.
E eu disse a ela num repente que a amava e que sempre amaria.
Sua resposta foi um sorriso, como se eu houvesse lhe dito a mais engraçada piada do mundo, o mais escandaloso absurdo.
Enquanto ela ria.
Eu sentia falta de algo.
Compreendi que era por ela que estava ali.
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A vida é cheia de ironias.
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