A voz.


art by ~Baro


O Japão não existe mais.
Mais de cem milhões devem ter morrido. Tóquio, Nagoya, Sentai, as ilhas... Tudo foi destruído. A transmissão foi em tempo real.
Dezenas de helicópteros estavam no ar quando a primeira onda atingiu o litoral e eles continuaram filmando tudo, mesmo depois que os aeroportos e cidades foram tragados pela água...
Havia aviões que caíram no mar quando o combustível terminou. O oceano não iria recuar e não havia onde pousar ou para onde voltar. Durante duas horas o mundo assistiu, hipnotizado, as imagens até que as transmissões, quase que simultaneamente, terminaram.
Cinco anos atrás, sem hesitar, eu diria que um dia como hoje e todos os últimos eventos eram 
simplesmente impossíveis. Indiscutivelmente impossíveis... Mas hoje o Japão foi devastado pela última baleia azul do planeta.

Eles ligaram, ainda na primeira hora dos eventos, quinze minutos depois um helicóptero pousou na minha rua.

Nunca conversei muito com meus vizinhos, agora a referência que eles terão sobre a minha humilde pessoa é me ver sendo raptado pelo exército na porta de casa.
Se eu voltar será divertido ver a cara deles...

Eu disse que algo assim poderia ocorrer se continuássemos puxando os limites daquela situação, mas eles não me ouviram.
Não consigo parar de pensar... Um país inteiro obliterado e me pergunto até que ponto isso foi ou não uma escolha consciente.

Talvez tenha sido por conta de todos os anos de caça ou talvez por Fukushima quase matar a vida no Pacífico, mas, em ambos os casos, estamos falando de um ato de vingança e isso implica em uma decisão consciente. Deliberada.
Mais importante... Isso significa a capacidade de sentir ódio.
A humanidade sempre pensou ter exclusividade sobre os sentimentos, pelo visto, estávamos errados.

Dois militares ao meu lado estão verificando os equipamentos à minha volta, não faço ideia do que estão fazendo, estou igualmente ocupado mexendo no computador e recebendo gráficos dos laboratórios e centros oceanográficos do Pacífico.

“Chegamos doutor. Vamos pousar agora.” Não vejo os olhos do soldado que fala comigo. Estamos descendo em Genebra, próximo ao prédio das Nações Unidas. Apressadamente seguimos para um edifício baixo com vidros espelhados azuis. São 9 horas da manhã.
É a segunda vez que estou aqui. Eles não me ouviram da primeira.
Eles nunca escutam.
Pessoas que eu não conheço me chamam de senhor e me observam como se eu estivesse trazendo comigo o Santo Graal.
Paramos em uma sala, alguns andares abaixo do solo. Não há diplomatas aqui, só o bando de pessoas que realmente manda no mundo.
De todas as perguntas possíveis diante do que é, essencialmente, este revolucionário evento, eu, por pura experiência, sei exatamente que a primeira coisa que eles irão questionar será...

“Então doutor... Como podemos matar aquilo?”

As vezes queria estar errado sabe? Os dados não param de chegar, agora de todos os observatórios oceanográficos do mundo, é fácil perceber o padrão de um fenômeno global. Países como Chile, Canadá e Estados Unidos, em algumas horas, serão atingidos pelos ecos da primeira grande onda. A contagem de mortos ainda vai aumentar.

Sento-me em uma das cadeiras e respiro, a resposta que tenho não é aquela que eles desejam ouvir. Não há razão para amenizar os fatos.

“Não podem.”

“Doutor... O senhor compreende a gravidade...”

“Sim senhor. Eu entendo. Perfeitamente... E, infelizmente, em cada possível simulação de cenário o resultado é o mesmo. Vocês perdem.”

“Nós ainda podemos usar os ICBMs russos e americanos para desintegrar aquela coisa!” A mulher que indica essa opção é a secretária de segurança nacional dos Estados Unidos.  Tenho realmente a impressão que os governos remanescentes do período da guerra fria acreditam que podem usar a solução nuclear para qualquer tipo de problema, de alienígenas a portas emperradas

“A baleia, senhora, detectaria a aproximação deles e, sem dúvida, seria capaz de derrubá-los.Sendo sincero, nesse momento, o alcance do sonar dela pode perfeitamente ter um raio superior a cem quilômetros e essa é uma estimativa bem modesta. Cada um dos enfrentamentos anteriores, nesses últimos meses, serviu apenas para alertá-la sobre as nossas intenções. E cada uma das suas respostas tornou-se progressivamente mais forte. Como eu disse, não é possível detê-la sem correr o risco de desencadear uma resposta ainda mais brutal.
Quando ela afundou os primeiros navios vocês deveriam tê-la deixado em paz.
Sem discussões, sem planos de contingência.

Deveriam aceitá-la e aceitar seus danos como qualquer outro fenômeno da natureza. Da mesma forma como nós perdoamos tornados e tempestades, mas, ao invés disso, nos decidimos abatê-la.

Agora ela sabe que estamos tentando caça-la e foi capaz de enxergar seus submarinos invisíveis do Projeto 970 russo e da classe Seawolf. Ela percebeu os motores dos seus bombardeiros quilômetros antes deles chegarem e conseguiu derrubá-los. Vocês a irritaram e como resultado, na manhã de hoje, criaram o maior evento cataclísmico da história recente da Terra”


“Por favor doutor. Estamos falando de um animal. Um animal fora do controle.”

“Não. Vocês estão falando de um organismo vivo cujo intelecto é a soma do conhecimento e experiência de toda uma espécie. Essa é a única explicação para todos os dados que eu tenho coletado.
Há apenas um indivíduo, mas, todos os sensores captam energia e som correspondentes à milhares de animais concentrados em um único.
O padrão sonoro dela não é comparável a nada conhecido. Nenhum som jamais foi tão potente.”

“Isso não faz sentido.”

“Exato. Maravilhoso não é? Imagino que o primeiro ministro do Japão não concordaria comigo, caso ele esteja vivo, mas é fantástico encontrar algo totalmente desconhecido.
A baleia azul era uma das espécies mais antigas da Terra. Compreendem isso? Elas testemunharam extinções, eras glaciais... Pensem o que a humanidade faria com dez ou vinte milhões de anos de história, pense como seria nascer já transportando consigo todo o conhecimento dos seus ancestrais.
Nós nunca cogitamos que existiam outros padrões e caminhos evolutivos além do nosso próprio modelo... Mas as baleias azuis fizeram isso.
Acredito que elas eram uma consciência coletiva. Interligada.
Aquilo que uma vivia ou sentia era compartilhado por todas as outras e isso significa que, cada uma delas que foi morta por nós, nesses últimos séculos, compartilhou a agonia dos arpões explosivos, barcos de pesca, facões e lanças.
Cada uma dessas mortes foi dividida e armazenada com os demais indivíduos.
Vocês conseguem conceber o horror disso, não?

Ao desaparecer, essas baleias entregaram aos sobreviventes sua voz e consciência.
Um sistema que deveria funcionar muito bem com milhares delas vivendo no mar, mas que, inevitavelmente, seria um desastre se restasse apenas uma.
Uma única criatura que carregasse todo esse peso.
Antecipando-me às suas perguntas, senhores e senhoras, eu não sei como isso aconteceu. Eu não sei como ela destruiu seus navios e aviões, ou como ela gerou aquela onda monstruosa. Talvez tenha sido o uso de vibrações e sons específicos, telecinese, ou algum tipo de energia que ainda nem alcançamos. Eu simplesmente não sei como isso foi feito. Mas sim... Ela é plenamente capaz de refazer a devastação de hoje e em uma escala ainda maior. Muito maior.

O que vocês devem considerar, com veemência, é que talvez as baleias azuis sempre tiveram o poder para fazer isso e até hoje nunca usaram esse recurso.
Nós as caçamos, devoramos sua carne, matamos seus filhotes e elas nunca reagiram. Por gerações elas foram complacentes com a ignorância da humanidade.

O “animal irracional” que vocês querem abater, é a última da sua espécie e mesmo sozinha em todo o planeta ela apenas atacou quando foi confrontada por nós.
Ela se defendeu.
Se a deixarmos em paz, com sorte, ela não irá atacar outros países.
Vai apenas envelhecer e morrer em silêncio, como qualquer ser vivo.
Em todo mundo vocês terão que lidar com sete ou dez laboratórios que detectaram as alterações causadas pela passagem da baleia, talvez quatro ou cinco pessoas nesses lugares podem estar próximas de saber o que realmente aconteceu.

Convençam cada uma a permanecer em silêncio, tenho certeza que todos irão adorar ter os recursos ilimitados dos seus governos para monitorar e acompanhar esse espécime no oceano. Vocês vão precisar deles.
Falem para a imprensa que foi um maremoto ou um meteorito, vocês podem mentir e, com todo respeito, imagino que já tem alguma experiência nisso.
As pessoas acreditarão. Uma pedra que cai do céu é muito mais plausível do que a história de uma baleia vingativa.

Eu não posso ajudá-los além do que acabei de dizer.
Suas opções são claras:

Voltar para o Pequod e torcer para que uma das suas ogivas atinja a baleia antes que ela decida dividir um dos continentes ao meio ou aceitar que nos próximo 60 ou 70 anos vocês terão que manter distância dela.
Se querem entender meu ponto de vista...Se querem saber porque acho seus planos absurdos, peço que vocês percebam que estão aqui, em uma sala no alto das montanhas,escondidos dentro de um bunker, tramando um jeito para matar deus.”


Eles ficaram em silêncio por uns 10 segundos. Então com uma voz sem qualquer emoção evidente, um dos presentes agradeceu minha presença e meu tempo.
Fui levado de volta para casa. Mesmo morando três mil metros acima do nível do mar e bem longe do litoral, não consegui dormir direito nos dias seguintes.

Depois de quarenta e oito horas, em uma coletiva de imprensa, o porta voz da Organização das Nações Unidas e um dos secretários do tratado do Atlântico Norte fizeram um pronunciamento coletivo. Eles disseram que todos os esforços possíveis seriam feitos para minimizar o sofrimento das vítimas do terremoto no Japão. Lamentaram a fatalidade e reforçaram o apoio mundial nesse momento de consternação.
Aparentemente um terremoto atingiu um ponto crítico das placas tectônicas sob o mar do Japão... Eu preferia a história do meteorito.

Desliguei a televisão.
Confesso que estava surpreso com o súbito bom senso dos presentes naquela reunião. Coloquei um pouco de água com gás gelada em um copo e fui para a varanda de casa.
Era uma noite bonita, principalmente porque o mundo não seria destruído.

No começo havia somente o silêncio e a lua cheia.
Eu não ouvi de início. Levou alguns minutos para notar a vibração baixa no ar e o zunido suave e instável.
Era a baleia azul... Ela estava cantando e dessa vez para todo o planeta.
A melodia parecia infinitamente triste.
Melancólica.

A humanidade sempre pensou ter exclusividade sobre muitos sentimentos.
Estava errada.

Olhei em volta para ver se, em outras casas, luzes foram acesas e mais pessoas começavam a vir para as janelas.
Nada.

Eles não ouviram.
Eles nunca escutaram.





art by ~Ebineyland




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