Hamal, Arietis, Livros e Cerveja.

art by ~Colourcatcher


Ele odeia tudo isso.

Não é nada pessoal. É só pelo prazer de sentir e opor.

Não precisa de nome. É um personagem comum, daqueles que passam entre as histórias sem ser notado. O tipo que você logo esquece.

Gosta de sentar na ponta da mesa. Demonstra pouca vocação para protagonista — não por falta de talento, mas por escolha. Se você insistir, ele toma mais um gole da cerveja amarga e quente, permanece quieto, olha para você tentando compreender o interesse. Concentra-se na música antes de responder. Nina Simone — Don't Let Me Be Misunderstood. Sorri com o canto da boca. Volta para a cerveja. Engole a seco todo o conhecimento que tem — de fontes estranhas, cultas, superficiais, aleatórias — e solta algumas palavras tão estúpidas que todos, até você, riem e esquecem o assunto inicial.

Manter-se abaixo dos holofotes é uma escolha consciente.

Ficar à margem para ter uma vista privilegiada.

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O problema é que hoje ele não veio só para observar.

A mulher entrou no bar há vinte minutos. Vestido preto. Cabelo curto. Sentou sozinha no balcão, pediu um whisky, não tocou na bebida. Ele a reconheceu na hora — já a viu outras vezes, sempre no canto, sempre calada. Tipo com pele de crocodilo. Dessas que você não consegue magoar, ofender, alterar. Você olha e não vê o que pensam. Se pensam. Se continuam ali com você.

Ele levantou, pegou a cerveja, sentou ao lado dela.

— Pode cair.

Ela não respondeu. Mas também não foi embora.

— Você não bebe — disse ele. Não era pergunta.

— Não.

— Então por que pede?

Ela girou o copo, olhou o líquido âmbar.

— Para ter algo na mão.

Ele riu. Curto. Sem ironia.

— É uma boa razão.

Silêncio. Nina Simone acabou. Começou alguma coisa com piano lento.

— Você sabe quem eu sou? — ela perguntou.

— Sei o suficiente para saber que você não quer que eu saiba mais do que isso.

Ela virou o rosto. Olhou para ele. Primeira vez.

— Você não tem medo de mim.

— Não. Você não é o tipo que faz mal para os outros. Você faz mal para si mesma.

Silêncio de novo. Mais longo.

— Por que veio falar comigo? — ela perguntou.

Ele pensou. Bebeu mais um gole.

— Porque hoje resolvi ser comediante. Preciso de uma plateia.

— Não vou rir.

— Não precisa. Só precisa ouvir.

Ela não respondeu. Mas ficou.

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Ele contou a história do bilionário que construiu um bunker subterrâneo para sobreviver ao fim do mundo e passou trinta anos lá dentro, isolado, com suprimentos para cem. Quando saiu, o mundo não tinha acabado. A humanidade estava lá, vivendo normalmente. O bilionário olhou para o céu, para as árvores, para as pessoas, e a única coisa que conseguiu dizer foi: “E o meu bunker?”

Ela riu. Foi um riso curto, seco, mas foi.

— Isso é triste — disse.

— É. Por isso é engraçado.

— Você é cruel.

— Não. Sou honesto. A vida é uma piada gigante. Esmagada por asteroide, afogada por tsunami, incinerada por vulcão. A graça é que a gente continua pedindo whisky para ter algo na mão.

Ela olhou para o copo. Pegou-o. Bebeu.

— Não gosto de whisky.

— Eu sei.

— Como sabe?

— Você pediu a marca mais cara. Quem gosta pede a que conhece.

Ela segurou o copo com as duas mãos. O gelo tinha derretido.

— Por que você está fazendo isso?

— O quê?

— Me ver.

Ele se inclinou um pouco.

— Porque pessoas como você — com pele de crocodilo — têm um ponto de quebra. Uma palavra, um gesto, e viram o crocodilo de verdade. A curiosidade é saber onde está o ponto. E se vale a pena apertar.

Ela não desviou o olhar.

— Quer me testar.

— Quero ver se você ainda sangra.

Silêncio. O piano continuava.

Ela levantou, colocou uma nota no balcão, e foi embora.

Não olhou para trás.

Ele ficou ali, com a cerveja quente na mão, e sorriu.

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Não conseguiu dormir direito naquela noite. Ficou pensando nela. Não no rosto — no jeito como ela segurou o copo. Como se fosse a única coisa sólida no mundo.

Ele não costuma se arrepender. Aconselha os outros: nunca se desculpe por aquilo que você é.

Mas naquela noite, sozinho no apartamento escuro, teve uma ponta — só uma ponta — de que talvez tivesse apertado o lugar errado.

Não que fosse mudar alguma coisa.

No dia seguinte, voltou para o bar. Sentou na ponta da mesa. Pediu uma cerveja. Esperou a música começar.

Nina Simone. A mesma.

Ele olhou para o balcão. O lugar vazio.

O garçom serviu outra cerveja e colocou na mesa sem sequer notar quem iria tomá-la.

Ele observou o amargo no copo e esperou aquele líquido esquentar.

Parado. Absolutamente imóvel.

Com a boca aberta aguardou os pequenos pássaros saltarem de sua língua para limpar as fileiras de dentes brancos, afiados, estáticos.

Os pássaros não vieram.

Ele enxugou o rosto com as costas da mão.

— Filha da puta — murmurou.

Não sabia se estava falando dela, de si mesmo, ou do mundo.

Provavelmente os três.

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A noite não foi divertida.

Para ninguém.

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...
Danilo Lodi.

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