Raízes.

art by Sarolta Bán.


Todos os dias algumas perguntas se repetiam.

Ele deixava o apartamento para trabalhar, passava pelas altas e estreitas portas do edifício. Havia uma maderera na frente do prédio baixo — era a primeira coisa que via ao sair — e sempre perguntava-se de onde vinham as árvores para todas aquelas mesas, bancos e portas expostas na vitrine. Destino meio triste... Nascer árvore e morrer banqueta.

Perguntava-se, com igual desinteresse, por que as árvores na rua, espalhadas pelo bairro, pareciam tão secas. Sempre magras e sem folhas, fincadas nas calçadas como garfos. Independente da época do ano, do tempo ou da chuva: perfeitamente secas.

O problema deveria ser ele. Não o cenário. O problema era ele.

Ele também estava fincado no chão como um garfo. A diferença é que as árvores não escolheram estar ali. Ele, sim.

Ela ficou. Ele veio sozinho. Isso foi há quatro anos.

Enquanto caminhava na calçada, alguma coisa sem nome o incomodava. Hoje, e nesses últimos dias, alguma coisa parecia fora de lugar. Como ninguém mais parecia incomodado, o problema deveria ser ele. A coisa fora do lugar deveria ser ele.

Seu aniversário estava próximo. Junho era um mês terrível e estranho — não apenas pela data, mas porque a época era um lembrete de que o tempo estava passando e que só faltavam outros seis meses para o ano terminar.

Ele pensou nas coisas que tinha o hábito de deixar para trás. Pedaços que vão caindo pelo caminho e que a maior parte das pessoas chama de "lembranças". Não havia arrependimento, mas... Sendo muito sincero: o passado, na maior parte do tempo, é uma merda que fica mais próxima da ficção e dos enganos da memória do que da vida real.

O futuro, por outro lado, era uma merda conceitual. Um esboço ainda preso na mesa de desenho — o projeto de uma casa ou de um prédio. Muito bonito de olhar, pensar, imaginar... Mas você não vive em um esboço. Você vive aqui, nesse lugar confuso que é o presente.

Isso é o que sobrava.

Naquele mesmo momento, ele percebeu que ainda pensava em português. As pessoas que passavam por ele, todas elas, pensavam em outra língua. Ninguém ali pensava como ele, e saber disso era desconfortável. Alguma coisa parecia tão fora do lugar.

Ele colocou a mão dentro do casaco.

O passaporte estava em seu bolso. Sempre estava. Tinha vontade de pegar um táxi para Ezeiza ou para o Aeroparque e perguntar afobado no balcão que horas partia o próximo voo para o Brasil. Tinha vontade de reencontrá-la e corrigir aquela série interminável de erros e assuntos mal resolvidos. Tinha vontade de ouvir outras pessoas falando sua língua, mesmo que fosse para ouvir as bobagens que elas falavam. Tinha vontade de esquecer seus antigos erros e cometer toda uma elegante coleção de novos.

Correu os dedos pelo passaporte — sentiu a capa, as bordas — e seguiu até o maço de cigarros. Precisava fumar.

— Perdón... ¿Tener un cigarrillo?

Um garoto de não mais que dezoito anos fez a pergunta. Ele precisou organizar os pensamentos para entender e puxou outro cigarro do maço.

— Gracias.

Ele acenou com a cabeça e continuou andando.

As coisas ficariam bem, pensava quieto. Era só uma questão de tempo. Tudo ficaria bem.

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Duas horas depois, ele estava no saguão do aeroporto.

Não saberia dizer por que foi parar ali. Caminhou sem decidir — e os pés o levaram. Não foi uma escolha. Foi um hábito.

Olhava os aviões chegando e partindo por uma das janelas. Tinha o visto em uma das mãos. Um café na outra. Andou até uma poltrona vazia, sentou-se.

Olhou para o passaporte. Depois para os aviões.

Chegando. Partindo. Chegando. Partindo.

Ele continuou sentado.

Não rasgou o visto. Não guardou o passaporte. Não chamou um táxi de volta. Não tomou o café — ele esfriava devagar sobre o braço da poltrona.

Permaneceu.

Fora de lugar, fincado no chão como um garfo. As árvores não escolheram. Ele, sim.

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O problema, definitivamente, era ele.

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